Eu já vi esse filme. Quatorze vezes só neste mês. E vai passar de trinta. É minha rotina. É tanta ficção, que nem me interesso pela realidade. Posso ser quem eu quiser na frente deste projetor. Me imagino na pele daquele ator famoso, como é mesmo o nome? Preciso me lembrar de prestar atenção nos créditos iniciais ou finais. Eu nunca olho. Geralmente, coloco a película pra rodar e vou pegar uma água ou um café. Semana passada, descuidei por dois minutos, a fita deu uma travada. Mas nada que atrapalhasse a projeção. Foi só dar um tranco que voltou. A sequência foi mantida, o beijo do casal aconteceu. No filme e em algumas poltronas. Dia desses, fui até o chefe, pedir aumento. Ele me olhou e disse: "Tá reclamando do quê? Você assiste filme de graça todo dia!". Vontade de fazer com ele o que aquele cara fez no filme. Pegar pelo colarinho, falar uns palavrões. Daqui a pouco passa a cena de novo. Vou decorar. Me disseram que vão reformar isso aqui. Colocar projeção digital. Será que eu vou saber mexer nesses equipamentos novos? Sei não, acho que vou pro olho da rua... eu poderia fazer como aquele maluco daquele filme, sair atirando em qualquer um pela cidade. Não, eu não teria coragem. Tenho família. Melhor eu ficar quieto aqui e aceitar o salário de fome. É melhor do que nada. Olha lá, tá chegando no final. Dá tempo de dar uma saída e pegar outro café. Ver como é a vida dos que vivem, enquanto a ficção tira um descanso.
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1 comentários:
Gostei. É tanta ficção!
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